“Ó literatura ou me dá o que peço ou me mata”
LIMA BARRETO

2022: centenário da morte de Lima Barreto. Neto de escravizados, nasceu livre; virou escritor, jornalista, cronista, e intérprete de um Brasil por ele desejado, mais plural e democrático. Não viu esse Brasil tomar forma. Internado no Manicômio Nacional, morreu com 41 anos, pois o racismo mata. Mas nunca foi tão atual! Leia, assista, ouça e espalhe Lima.

Detalhe da obra Lima Barreto (2017) de Dalton Paula

LIMA BARRETO POR

LEANDRO SANTANNA

"Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês."
“O homem que sabia javanês”, de autoria de Lima Barreto e interpretado por Leandro Santanna, foi publicado originalmente na Gazeta da Tarde (20 de abril de 1911), e, quatro anos depois, na primeira edição de Triste fim de Policarpo Quaresma (1915, pp. 287 -97). O conto desenvolve a história de Castelo, um personagem que sai do anonimato à glória nacional ao se candidatar a uma vaga de professor de língua javanesa. A conversa boêmia entre Castelo e Castro, o narrador e seu interlocutor, tem início numa confeitaria carioca e nos conduz à Biblioteca Nacional, ambientes diletos de Lima Barreto. Pela via do sarcasmo, o conto atesta o olhar crítico do nosso escritor em relação à erudição postiça e ao fascínio dos “doutores” pela importação de ideias estrangeiras.

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SILVIO ALMEIDA

"Os dias no emprego do Estado nada têm de imprevisto, não pedem qualquer espécie de esforço a mais, para viver o dia seguinte. Tudo corre calma e suavemente, sem colisões, nem sobressaltos, escrevendo-se os mesmos papéis e avisos, os mesmos decretos e portarias, da mesma maneira, durante todo o ano, exceto os dias feriados, santificados e os de ponto facultativo, invenção das melhores da nossa República."
O conto "Três Gênios de Secretaria" é um dos mais satíricos de Lima Barreto. Nele, o escritor aponta a sua crítica ao ofício dos burocratas partir de três caricaturas: o burocrata honesto, o desonesto e o medíocre. Publicado originalmente em Brás Cubas, Rio de Janeiro, 10 de abril de 1919, o texto também aparece na coletânea Contos completos de Lima Barreto, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

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ELISA LUCINDA

"Certamente, durante os séculos de escravidão, nas cidades, os seus antepassados só se podiam lembrar daquelas cerimônias de suas aringas ou tabas, pelo carnaval. A tradição passou aos filhos, aos netos, e estes estavam ali a observá-la com as inevitáveis deturpações."
O conto “Cló” aborda a violência do desejo e suas interdições no interior de uma família atravessada pelo período do pós-abolição. Contextualizada na mistura de gestos e raças do carnaval carioca, a história se concentra nos flertes da jovem Cló, filha do casal Maximiliano e Isabel, e do casado dr. André. Ambiguidade e a violência das relações interraciais, bem como sua denúncia, fazem parte da narrativa desse conto.  O conto foi originalmente editado na primeira edição de Histórias e sonhos (1920), além de posteriormente publicado na coletânea Três contos—Lima Barreto (1955), com ilustrações de Claudio Correia e Castro.

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Conceição Evaristo

“Quando saio de casa e vou à esquina da Estrada Real de Santa Cruz, esperar o bonde, vejo bem a miséria que vai por este Rio de Janeiro.”
A crônica O "muambeiro”, de autoria de Lima Barreto, é lida aqui por uma das grandes expoentes da literatura brasileira contemporânea, Conceição Evaristo. O texto foi republicado e compilado em Toda crônica: Lima Barreto, em edição organizada por Beatriz Resende e Rachel Valença (Editora Agir, 2004). Com o olhar aguçado que lhe é próprio, a crônica nos aproxima das andanças de Lima pelos subúrbios cariocas e retrata os infortúnios dos trabalhadores que por ali circulavam. Ao recontar histórias que ouvia à espera do bonde, o texto expõe as tensões entre o cotidiano carioca e a vida econômica do país, ao mesmo tempo em que compartilha modos de navegar através de suas contradições.

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DJAMILA RIBEIRO

“Viu o olhar severo do pai; as recriminações da mãe. Ela, porém, precisava casar-se. Não havia de ser toda a vida assim como um cão sem dono... Os pais viriam a morrer e ela não podia ficar pelo mundo desamparada... Uma dúvida lhe veio: ele era branco; ela, mulata...”
O conto Clara dos Anjos, de autoria de Lima Barreto e lido por Djamila Ribeiro, está presente na primeira edição de Histórias e sonhos (1920, pp. 142-153). Um fragmento do manuscrito original pode ser encontrado na Biblioteca Nacional (Mss. I-06,34,0906). A história foi uma das mais revisitadas pelo escritor. Lima faz referência à personagem já no seu Diário íntimo da década de 1910. Em 1922, o texto virou romance, mas foi publicado apenas postumamente no ano de 1948. Considerada a novela mais suburbana e feminina do autor, a narrativa retrata uma jovem alter-ego de Lima - negra, sonhadora e carioca -, que termina grávida e abandonada.

Como parte do projeto Espalhe Lima, a Companhia das Letras disponibiliza E-book gratuito com uma seleção de contos do autor feita por Lilia M. Schwarcz. Os contos fazem parte do livro Contos completos de Lima Barreto (2010)

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O PROJETO

Espalhe Lima é um convite à retomada da vida e obra de Lima Barreto em meio ao centenário da sua morte em novembro de 1922. Ao longo de 2022, renomados artistas, escritores e pesquisadores, negras e negros, de diversas nacionalidades, emprestam sua voz e corporeidade para, ao ler textos do escritor carioca, demonstrar a atualidade deste modernista que foi durante tanto tempo excluído e silenciado, mas que permanece tão atual frente aos nossos dilemas contemporâneos como racismo, exclusão social, valores republicanos e democráticos. Essa é também uma oportunidade de, nesse ano em que se completam 100 anos da Semana de Arte Moderna, rever esse autor que ficou fora da festa paulistana. Sob organização do Brazil LAB e da Companhia das Letras, essa plataforma busca espalhar Lima Barreto através de vídeos, imagens e textos em formato bilíngue e de livre acesso.

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